• Adriana Travasso

Pouca terra, pouca terra, u-uuu!

“Criador da mobilidade”, lhe chamou alguém e, de facto, o caminho-de-ferro pôs em movimento toda a população do mundo, fez circular todos os produtos da terra.


Hoje escrevo-lhe, caro convidado, para lhe falar sobre duas das minhas grandes paixões: os comboios e a sustentabilidade. Muitos são os domingos que, aborrecida, por casa a domingar, pego no meu filho e lá vamos nós, parceiros de crime, espreitar o comboio que passa TheVagar. A sua estrutura e composição, o som que emite, o fumo que emanava, a velocidade com que se move e toda a sua história, tradição e essência me encantam. Estudei-os ao longo do meu percurso académico e, profissionalmente, sou acérrima incentivadora deste meio de transporte. Ok, eu sei que sou suspeita, mas não é só um fascínio. É que o comboio é um meio de transporte sustentável, tema que tem que estar em cima da mesa nestes dias e nos muitos que lhes seguirão.



Foi em 1841, a partir da iniciativa de Thomas Cook, considerado o Pai do Turismo, que, ao alugar o primeiro comboio para uma viagem de congressistas, o transforma num poderoso meio de transporte. Em sequência, desenvolveram-se as primeiras estâncias balneares marítimas, popularizaram-se as viagens de grande distância e passou-se a encarar o Turismo como atividade com potencial económico.


O auge deste meio de transporte deu-se entre 1920 e 1930, época em que o automóvel era uma raridade e o avião um meio acessível apenas a classes elitistas. Contudo, e apesar das suas potencialidades, com o tempo, o comboio foi perdendo clientes, em parte devido à massificação do avião, entre outros fatores. Denota-se, no entanto, um esforço, em alguns países, como é o exemplo de Portugal, para inverter esta tendência. Tem sido feita uma aposta na modernização do sector e a tentativa de torná-lo mais competitivo relativamente a outras opções de deslocação.

Qualquer linha ferroviária, em quase todo o território nacional, proporciona paisagens únicas, algumas inacessíveis por outro meio de transporte. Prova disto, eram os “comboios mistério”, que existiram em Portugal entre 1930 e 1936. Fizeram furor na época, saindo, até, em capas de jornais! As pessoas que neles embarcavam não sabiam o seu destino, apenas no momento da chegada. Até lá, desfrutavam do prazer que uma viagem de comboio pode proporcionar, especulando, divertidas, acerca do que as esperava.


Recuperar a força do comboio é, portanto, uma questão de aproveitar e potencializar as infraestruturas já existentes, promover o uso de um meio de transporte mais sustentável e dar a conhecer os territórios nacionais, já que as nossas linhas asseguram a passagem por belíssimos locais recônditos, sendo, portanto, o caminho-de-ferro um aliado na promoção e na dinamização de tais regiões.

A linha que atravessa a região onde está localizado o TheVagar, denominada de linha da Beira Baixa, foi inaugurada a 6 de setembro de 1891, pelo Rei D. Carlos. É, provavelmente, a par da do Douro, uma das mais bonitas de Portugal. Tanto uma como outra, acompanham, em parte, os leitos de dois dos maiores rios que cruzam o nosso país. A linha da Beira Baixa bem que podia, então, denominar-se de linha do Tejo. Mas, com a construção de uma autoestrada para o Interior, o comboio foi perdendo passageiros e, infelizmente, uma parte desta linha foi encerrada. Aqui, no alcance das vistas do TheVagar, a maquinaria, o som, as carruagens dançantes não davam qualquer sinal de vida desde 2009. Fruto da luta e do investimento na ferrovia, em maio de 2021, a linha da Beira Baixa renasceu das cinzas: comboios com mais horários e estações recuperadas. A estação de Caria foi uma das contempladas, a escassos 700 metros do TheVagar.


Com os amantes de comboios partilho este segredo: nas varandas das nossas suites pode, ao longe, contemplar a passagem do comboio nesta linha centenária, que conta já com mais de 130 anos de existência!

Mas, além da facilidade que o comboio trouxe às gentes e à economia da região, através da mobilidade e circulação de mercadorias, a linha da Beira Baixa permite-lhe planear a sua viagem até nós neste meio de transporte. Seja a partir de Lisboa, do Porto, ou até mesmo além-fronteiras, há diversas ligações que pode consultar aqui. Nem imagina as maravilhas que vai poder contemplar pelo caminho! Desde a belíssima arquitetura das estações ferroviárias, passando pelo portentoso Rio Tejo, que acompanha a linha por mais de 60 quilómetros, às pontes de ferro que a sustentam. E mais, muito mais!


Porque o TheVagar tem implícita a sustentabilidade em tudo o que promove, relembro o caro convidado que o comboio é, assumidamente, um meio de transporte amigo do ambiente, pouco poluente, capaz de transportar um grande número de passageiros e com zero impacto na paisagem. A linha da Beira Baixa é totalmente eletrificada, e, se já sabe que no TheVagar tudo fazemos para que a sua estadia flua em harmonia com a natureza, porque não fazer a viagem até nós, já a pensar num mundo mais amigo do ambiente?